terça-feira, 13 de setembro de 2016

Não os deixei fazer de mim um macaco mordomo: sobre as vezes em que me senti humilhada fazendo casamentos

 
Com que imagem ilustrar esse texto? Já sei! Aquela Chico Buarque

Existe uma certa ideia de glamour, sonho e beleza que envolvem os casamentos. Não vou mentir: eu curto essa aura, eu gosto de contribuir pra ela mesmo quando defendo com todas as vísceras a ideia de que a celebração do casamento deve versar sobre a verdade e a autenticidade em detrimento das baboseiras e artificialidades que recheiam as revistas especializadas.
Mas tá lá, aquela aura... aquele sonho... Eu curto tascar um batom vermelho, um cordãozão brilhante, aquele perfume francês que tô pagando até hoje. Misturo tudo isso com meus inseparáveis looks em preto. Nos últimos tempos, inclusive, viciei no chapéu coco que comprei duma amiga e, se o terreno permitir, meto um salto alto. Tudo para tentar estar à altura do brilho do sonho daquelas pessoas pra quem estou trabalhando e seus convidados. E também estar à altura do que, apesar dos sentimentos em conflito, sinto em relação aos casamentos.

Mas o que eu gostaria de dizer é o seguinte: meia hora antes de eu aparecer na festa cheia de montações, com o rádio transmissor pendurado no ouvido, eu entro em desespero. Costumo passar dois dias montando o casamento, uma semana correndo pra baixo e pra cima resolvendo questões do cerimonial e da decor, cuidando do meu filho praticamente sozinha porque o pai trabalha em outro Estado, resolvendo questões de saúde, cuidando da casa, atendendo outros casais. Tudo isso emoldurado por pouquíssimas horas de sono.

Me desespero. Me olho no espelho e vejo uma pessoa completamente destruída que não vai conseguir dar conta da tarefa imensa que me foi confiada. Tento respirar. Ligo a pranchinha e começo a lavar os braços, o pescoço. Se tiver muita sorte, tomarei um banho mas, se for um dia como todos os outros, vou me resolvendo com duas toneladas de lencinhos umedecidos, grandes companheiros. Me visto e, no final disso tudo, de algum modo incompreensível, eu me sinto forte ou desajuizada o suficiente para enfrentar uma cerimônia e 5h de festa.

Pode parecer que o texto é sobre isso, sobre essa coisa gladiadora de matar 3 leões e ainda converter os romanos ao catolicismo, mas não é. Eu preciso é escrever sobre o fato de que são raras as pessoas que veem aquela mulher que estava carregando as cadeiras e mesmo aquela moça de preto fantasiada de segurança de shopping drag como uma pessoa.
Quando estou ali na frente da pia lavando os braços ou esfregando as axilas com lencinho Johnson.. naquele momento de glória eu sei muito bem que sou gente e sou gente pra caramba. Além de ser gente, eu sou a capitã daquele navio, dona do circo que se desenrola lá fora à minha ausência. Eu sei o que organizei, o que criei, a trajetória que vivi pra chegar até aquele momento bizarro de banho de gato. Sou aquela pessoa tentando juntar os cacos da dignidade estilhaçada pelo cansaço e pelas expectativas.

Talvez a confiança cega nessa chave ("sou uma pessoa!") me faça cair cada vez mais alto quando, inesperadamente, não sou tratada como tal em um evento.

Olha, eu espero que meus pais nunca leiam o que eu vou dizer porque eles ficariam muito frustrados de saber que, apesar de todos os esforços feitos por nós pra que fosse diferente, eu, como eles, me vejo presa na mesma rodinha de crenças brasileiras de que o trabalhador e o escravo são caras muito parecidos. Eles achavam que se eu estudasse, que seu eu tivesse um diploma pendurado na parede, que seu eu tivesse um título numa faculdade foda, que se eu fosse essa pessoa, não passaria pelas privações que eles sofreram por não terem nada disso. 

Mas bem... o Brasil ainda tem grandes dificuldades de entender que todos merecem respeito, seja o cara do trabalho braçal seja o cara do escritório. Para um número assustador de pessoas para quem já trabalhei, eu não sou realmente uma pessoa. Como acontecia com os escravos que estudei no mestrado, eu sou, para essas pessoas, uma ficção que me faz mobília. Um eletrodoméstico. 

Teve aquele episódio em que o casamento contava com cadeiras reservas. A ideia era que os convidados, na medida que sentissem necessidade de sentar, pegassem suas cadeiras self-service, mas aí apareceu esse senhor distinto e sua companheira e eles me disseram que eu precisava arranjar rápido uma cadeira porque Fulano não podia ficar em pé. Aquilo era um absurdo. Fulano era diretor de um grande hospital, sabia? Como você quer que ele fique pegando cadeiras?? E nesse mesmo casamento tinham umas madrinhas que chegaram horas antes e ficavam batendo palma gritando COMO É QUE É!! TERMINA LOGO DE PENDURAR ISSO! 

Foi inesquecível também aquele dia de chuva em Copacabana quando, com o trânsito todo parado, eu andei quilômetros até a casa da noiva que dizia vai ser um absurdo você desmarcar essa reunião!  E eu fui e chegando lá eu estava morrendo de fome, mas não conseguia dizer isso. Eu estava paralisada pelo medo de ser demitida, ou sei lá, de tomar um esporro pelo atraso e fiquei encharcada idiotamente, com fome. Ela não queria que parássemos pra comer. Eu estava com 4 meses de gravidez.

Ah! Aquela noite memorável quando a decoradora não apareceu e eu tive de montar tudo com uma equipe desconhecida + Arajany + os familiares que apareceram... naquela noite eu achei que terminaríamos comemorando abraçados com aquele aquele casal lindo por termos superado um grave problema, mas não, no final eu era a culpada de tudo porque não devia ter sido indelicada com a decoradora que, 40 minutos antes do inicio da festa, não sabia que cor de toalhas colocar. Pensei em colocar toalhas marrons. MAS AMIGA, O CASAMENTO É EM TONS PASTEIS! ACHO QUE VOCÊ PRECISA DAR UM JEITO E SE RESOLVER. Disse a contratada que, por conta dessa conversa no Whatsapp, ficou com medo de eu dar um escândalo e prejudicar o casamento. Aí ela não apareceu. Aí nós montamos e no final disseram que eu fui grosseira, violenta. Não ocorreu talvez que eu estivesse tentando trazer um casamento à vida em 3h e, nesse cenário extremo, como eu teria cabeça para ser fofa ou sociável? Nesse dia o caldo entornou mesmo e passei uma semana chorando sem entender what the porra eu tinha feito errado e porque me odiavam mais do que a profissional que faltou.

No dia seguinte, naquele mesmo lugar, uma moradora de um prédio próximo resolveu lavar sua varanda bem quando fazíamos a montagem e pôs-se a jogar agua suja em nós. Horas antes, outra moradora, revoltada por termos mudado os móveis da área gourmet do condomínio de lugar, exigiu. Exigiu. Que colocássemos mesas e cadeiras de volta ao seu lugar de origem porque ela queria bater parabéns no mêsversário (?) do filho.  

A quantidade de noivas e noivos que acreditam que fiz menos do que devia ter feito é incontável. As noivas e noivos que, ao longo do processo ou no dia, disseram de uma forma ou de outra que fariam muito melhor, que é só dar um jeitinho, que não é tão grave assim, que estou exagerando, que é um absurdo que eu não tenha feito isso, aquilo, aquilo outro... nossa, essas pessoas! Elas apareceram na minha vida em uma quantidade muito maior do que eu posso suportar. E eu não suportei. E eu sucumbi. Essas pessoas.... se elas sabem perfeitamente como fazer para que seus casamentos sejam foda, por que me contratam?? Por que me fazem embarcar num projeto dizendo que estamos juntos quando, na verdade, tudo o que querem é me teleguiar, questionar cada conselho, cada decisão, passar por cima, desfazer, esconder ideias, esconder budgets ou, simplesmente, não me pagar?

Por que fazem isso?? Por que eu preciso ser um cortador de grama ou um aspirador de pó? O que autoriza certas pessoas a me tratarem como qualquer coisa menos que gente ou, ainda, por que acreditam que não mereço respeito profissional? De onde muitos tiraram a ideia de que o que faço é ridiculamente mole?

A resposta vai dançar óbvia nos lábios dos meus amigos: Prill, você é uma Pollyana. Você precisa parar de achar que as pessoas vão respeitar seus sonhos, esforços e boa vontade em fazer um casamento legal. As pessoas respeitam quem cobra um milhão de dólares pra se divertir. As pessoas respeita quem as trata com indiferença ou assepsia. As pessoas passam por cima de você porque você acha que todo mundo é bonzinho. Você devia ficar só sentadinha mandando sua equipe fazer tudo ao invés de ficar colocando as mãos nas coisas. Devia parar de pedir opinião de noiva e fazer o que você sabe que está certo.  Em resumo, miga: você é uma otária. Tire todo o dinheiro desses idiotas, tire selfies e saia fora. Você devia virar as costas e ir embora quando essas coisas acontecessem! Mas..... como??? Me digam francamente: como posso ir embora?

Diariamente me coloco em situações extremamente delicadas. Meti na cabeça que queria fazer casamentos diferentes, em lugares diferentes, com abordagens diferentes.Casamentos que não buscam a perfeição  de um editorial fotográfico, mas que buscam virar história real por ser uma experiência real. Sonhei em pagar as contas fazendo isso. Trabalho para um público muito mais suscetível a merdas do que o público que curte casar no salão de festas que faz a mesmíssima festa todas as semanas e acho que essas pessoas podem e devem casar conforme as próprias regras, assim como eu fiz.
Sonhei alto demais?

Vejam que coisa bem idiota em se dizer: eu sonho em ter um trabalho sonho. Sonho ser respeitada pelo que faço, seja quando estou de mendiga carregando mesas, seja em cima do salto com o título da UFRJ pendurado no pescoço.

Não sei se algum dia vou conseguir isso. Desconfio que a base de tudo está em me relacionar somente com clientes que possuam as mesmas visões humanistas e estéticas que eu (ao menos parecidas). Com linguagem semelhante. Com diálogos que se encaixam. O foda é que não sei se seria possível ter isso todo o tempo. As contas não se pagam sozinhas! 
Talvez eu possa aceitar que nem todos os clientes vão se tornar meus amigos pessoais como a Arajany, ou a Fatinha, Maíra ou as Carolinas e outras mulheres e homens maravilhosos por quem tenho verdadeira adoração. Posso não ganhar todas. Mas não sei se posso aceitar me perceber dentro do "Histórias Cruzadas". 

Comecei esse texto achando que sabia onde eu queria chegar, mas o texto me levou pra qualquer lado que desconheço. Vou me apegar novamente àquele momento na frente da pia. Ali, tudo são possibilidades, tudo pode dar certo. Naquele momento eu sei quem eu sou. Eu sei o que fiz. Não preciso de confetes, homenagens, glamour nem brilho. Só preciso da minha farda preta. Só preciso fazer um casamento e garantir que cheguemos vivos do outro lado.  Mesmo sem saber como vou sobreviver a isso.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Carol e Gustavo: todo amor nasce de uma metáfora



 Prólogo
A testa brilhando de suor - porque ela dançou e não foi pouco - faziam moldura para sorriso misturado com lágrimas, batom vermelho quase intacto e um exemplar de "Um  ônibus do tamanho do mundo" aberto entre as mãos. Ela apontou para o escrito na primeira página: quando eu conheci Gustavo, ele era um nome num livro, disse. 

Carol marotamente fazia caras, caretas, balancinhos de pés e ombros a la Betty Page. Posava para fotos, muitas fotos, parecendo confortável no papel de noiva como se casasse toda semana.
Eu ali do lado e ela pediu de volta a taça de espumante mas, por mais que eu tenha me preocupado com o fato da bebida já não estar mais tão gelada, ela pediu a taça de volta e virou como se fosse whisky cowboy e fez o copo aterrissar na palma da minha mão. Em um segundo ela não estava mais lá porque saíra correndo, saltitando ou mesmo flutuando levando atrás de si um grupo de pessoas que a queriam. Todos a queriam. Acontece isso: certas pessoas são irresistíveis.

Como tudo começou   
A primeira mensagem que Carol me mandou foi pelo Whatsapp. Era um sábado, passava de 1 da manhã e chovia muito. Ela resumiu a loucura em poucas palavras que eram mais ou menos assim: "Oi Prill, sou amiga da Carol Bit e vou casar em 20 dias". Meio dormindo, meio acordada, meio amamentando, sem fazer ideia do por que o celular estava na minha mão, li o que ela escreveu e desmaiei pra somente no dia seguinte sacar que as mensagens não tinham sido um sonho. Catei novamente o telefone pra reler e foi apenas aí que a sinapse explodiu: WHADARRÉL? CASAR EM 20 DIAS???
Respirei, cantei Harebo, cantei Enya, tentei keep calm e respondi pedindo maiores informações sobre o lance. Em 10 minutos já estávamos trocando áudios bolados e atropelados falando de docinhos, DJ e vestido como se não houvesse amanhã, mas bem... era domingão, tinha que ir pra tradicional reunião de família ao redor do frango assado e parti mas confesso que, apesar de ter desligado o telefone, passei o resto do dia ruminando aquela história toda de casamento na casa de uns tios, noivo que curtia football americano e ela que era da vaibe poás e Mad Men.

A ideia da Carol e do Gustavo era suave. Eles tinham planejado um casamento só no cartório mesmo seguido de um almoço em família com zero pirotecnias e sem coisas estruturadas. Mas o que esse casal tijucano não sabia era que o espírito dos casamentos é um espírito mal do Oeste que se manifesta quando  você diz três vezes na frente do espelho: "vamos só assinar no cartório e fazer um almocinho com a família pra não passar em branco". Nunca faça isso! Nunca! Eles fizeram e deu no que deu.
 
 
Nos primórdios de tudo, era pra ser uma reunião de 20 pessoas mas, com o gentil oferecimento da Tia Neide, que tinha uma casa bacana e era acostumada a dar festas, dava pra esticar um bocadinho mais a lista né? Assim como os gremilins se multiplicam numa chuva de verão, a coisa saltou para 40 pessoas, depois para 80 almas, depois para 120 e aí a gente chegou naquele ponto em que você precisa ou ter muita coragem ou não ter nenhum juízo. Ir em frente ou desistir? Mas desistir não era uma opção porque Carol e Gustavo não são desses e também porque havia muita coisa familiar em jogo. Então o jeito foi aceitar que eles iam cair, mas iam cair atirando. Pra pelo menos dar um respiro, a data do casamento foi passada para alguns dias depois do casamento civil e essa correção de calendário nos deixava o total de magníficos 40 dias para preparar tudo ao invés de 20. HMMMMM!!

A Carol, agora oficialmente bridezilla, correu para ver vestido, sapato, comida e convites. Eu corri pra conhecer a casa da Tia Neide e finalmente ter contato direto com aquela moçoila que eu mal conhecia, mas já considerava pakas.
Nos encontramos à beira da praia numa tarde cinza de maio. Eu super nervosa, na maior expectativa por estar saindo de casa pela primeira vez sem o bebê - tipo, sem ser pra ir na padaria e voltar -e parte de mim queria saltar do ônibus enquanto a outra metade queria correr louca pelas ruas gritando me dá cervejaaaaa. Vale deixar registrado que esse momento humano e intenso acontecia no meu peito enquanto o celular dum cara no ônibus se esgoelava cantando: estou indo embora/ a mala já está lá fora. Essa música. E ela tocou. No repeat. Por 1 hora.

- Vai ser super fácil me encontrar. Tô com uma camisa preta com um coração de lantejoula gigante na barriga. Eu tô tipo... saí dos Ursinhos Carinhosos
Ri loucamente quando, alguns minutos de trânsito parado depois (obrigada Barra da Tijuca), lá estava ela com sua indumentária jogando arco-íris pelos ares e deixando tudo mais maneiro, me esperando na calçada do condomínio da Tia Neide. Dissemos olá!, nos abraçamos e foi fácil superar aquele momento esquisito quando a gente não conhece a outra pessoa porque lá saímos pela rua engatando os mesmos assuntos das mensagens de texto como se nada tivesse acontecido, como se não tivéssemos acabado de nos esbarrar no meio da rua. Sim, acho isso muito louco.

Os donos da casa eram um casal de senhores muito sacudidos e foram super gentis em mostrar todo o espaço em detalhes enquanto enumeravam o que dava e o que não dava certo nas festas que rolavam lá. Pouca gente sabe, mas casamentos em residências tendem a dar mais certo quando o local possui os seguintes lances:
- espaço suficiente pro número de almas convidadas, 
- espaço extra (se você for colocar photobooth, open bar, essas coisas)
- possibilidade de guardar móveis pré-existentes, 
- mais de um banheiro, 
- principalmente, uma cozinha espaçosa. 
 A casa da Tia Neide tinha tudo isso, era um sonho duma noite de verão mira mira, e só precisávamos de alguns ajustes mínimos pra fazer o negócio funcionar. É claro, todo mundo que começa achando que vai ser fácil se ferra né? Não seria diferente com a gente.


Antes do antes acontecer
Carol conheceu o Gustavo porque tinha o nome dele nos livros dela. Fico imaginando ela pequena e agitada, sorrindo com aquela boca de coração, às voltas com objetos que antes tinham sido dele. Livros? Brinquedos? Mais o que? Quando penso nisso me vem um abismo embaixo dos pés porque você percebe como o destino, os sonhos e as lutas das pessoas conduzem todas as histórias. A mãe do Gustavo tinha três meninos e simplesmente não conseguia resistir a filha única da cabeleireira aparecendo sempre com um lápis, uma ajuda com o uniforme da escola, um brinquedo novo, um brinquedo dos filhos. A menina crescia e a mãe da menina, que tinha que levar a vida sozinha no peito e na raça, podia contar com aquela madrinha que sempre estava por perto para todo apoio. 
Foi a madrinha quem colocou pressão e incentivo pra prova do Pedro II e, obviamente, nossa heroína, passou, entrou pro colégio e carimbou seu ticket to ride rumo a uma vida muito do que qualquer um que olhasse rápido pra sua história diria que ela poderia ter. 
A escola passou. O vestibular passou. A UERJ chegou e, com ela, aquela parte zuada em que a gente precisa fazer um estágio. Mas chegar assim no estágio sem ter noção de nada? Carol precisava de uma força. O filho da madrinha podia ajudar? Sim! O Gustavo do nome do livro, ele mesmo. Ficaram super amigos. E foi e era ele. O imponderável decidiu que seria assim.

Ela tinha muitas ideias pra decor e rapidamente montamos uma prancha marota no Pinterest. O problema era que a grana tava curta e precisávamos tomar algumas decisões sérias para fazer o sonho caber tanto no saldo bancário quanto no tempo disponível pra quitar tudo. 
A primeira coisa era o serviço. Ao invés de fecharmos Assessoria, Decor e Cerimonial, a Carol ficou com a parte burocrática do casamento - aproveitando a experiência que tinha em planejamento de eventos no trabalho - e eu fiquei com a parte criativa, dando uns pitacos no fechamento dos serviços na brodagem. A segunda coisa era o aluguel dos móveis, que comeria a maior parte do budget que a gente tinha. 
Pra otimizar a vida e usar aquela pica a nosso favor, apresentei pra Carol a ideia de usarmos móveis azul marinho e compor tudo com objetos de cena vermelhos e listrados p&b, que era uma parada que ela curtia. Assim a gente, ao invés de investir em cadeiras marrons ou brancas que não fariam lá muita diferença visual, poderíamos pontuar o cenário com uma cor vibrante. Ela desconfiou. Eu falei, miga, vem comigo. Ela disse seja o que Deus quiser. E daí batemos o martelo jogando dourado em cima de tudo porque dourado é amor. 

Fomos defender nossa paleta no Saara. Tinha que comprar uns itens maneirinhos de composição e as famigeradas forminhas. Meu deus, a gente andou pra cacete aquele dia! Tudo culpa minha que cismei com uma loja mas a dita cuja tinha mudado de endereço :( Sorte master ter a noiva levando tudo na esportiva enquanto eu pedia um milhão de desculpas. Compramos forminhas, saia para cupcakes, velas, paradinhas douradas, pompons e mais um monte de bugiganga. A gente saiu com as lojas fechando atrás da gente, lembra? Falamos pra caralho caminhamos por aqueles becos. Era aparelho de dentes, peitos vazando, boys, profissão, sobre coisas bestas, sobre coisas sérias. Falamos sobre a morte da sua mãe e da sua avó e você me explicou sua visão de mundo: uma família de verdade se faz com escolhas diárias para estar presente na vida do outro e que isso nenhum laço de sangue vai poder construir. Falamos sobre solidão, sobre drinks e você me fez sentir saudades de bailes funks da Tijuca em que nunca estive mas que, tenho certeza, precisava ter estado. 
Tudo isso acontecia enquanto, lá fora no mundo real, os táxis ignoravam a gente pulando no meio fio com mil sacolas.

 

O despertar da força
O maior problema que tínhamos de enfrentar na montagem da decoração era a impossibilidade de retirar/mover alguns objetos e móveis da casa que ou eram muito pesados ou não tinham como ser guardados. Chegamos no dia 25 de abril com uma previsão de 150 convidados e, com a galera toda confirmando e tals, cada micro pedacinho da casa que a gente perdia era uma lágrima de sangue que vertia pela minha cara. Para contornar o drama, escondemos algumas cadeiras atrás de um biombo e trabalhamos com a ideia de oferecê-las aos convidados caso de fato as 150 almas comparecessem. 
Os noivos estavam circulando pela casa durante a montagem num clima bem me-larga-to-de-bouas e foram levando as coisas pessoais que seriam usadas na decor, lembrancinhas, roupas, docinhos e bolo feitos pela confeitaria da família do noivo (alô Lecadô! alô coxinha!). Depois de tudo desovado, Carol rumou pra o local onde se montaria e Gustavo ficou por lá dando um gás no departamento comes. Foi somente depois de dar uma relaxada nos afazeres que este nobre senhor olhou ao redor e se entregou a nobre tarefa de xoxar nossos DIY - eram várias bandeirinhas e pompons tipo líder de torcida - o que me levou a fazer algumas pequenas modificações no projeto  #denuncia. Sim, Gustavo, eu quis te matar. Mas beleza, sei que você também quis me matar, mas hoje somos BFF me abraça! 
Pra cobrir partes que ficaram meio vazias, o Gustavo acionou os pais pra que eles levassem mais alguns itens - como quadros, fotos e etc - dele e da Carol para usarmos na composição.
Show! Tudo certo! Tudo montado! Corri para me arrumar também e posicionar as coisas para o cerimonial. Não teríamos cortejo mas, como se tratava de um casamento doméstico, as pessoas poderiam ficar um pouco confusas sobre como as coisas ocorreriam. Dei uma acalmada nas crianças e fui receber a noiva que chegou absolutamente divina,  pontual com seu batom russian red, animadíssima. Mostrei umas fotos de como estavam as coisas e entreguei o buquê boho de cáspias super delicado feito pela Arajany. Arranjamos no caule uma fotinha da mãe da Carol e começamos a aguardar os pais do noivo com os itens mas, como já ficou claro, casamento é ímã de eventos absurdos aleatórios e daí que nesse mesmo dia em que Carol e Gustavo uniriam suas vidas em matrimônio, tava rolado APENAS UMA CORRIDA DE RUA da Nike que fechou todos acessos ao condomínio. Só isso.

Mas o que são essas questões quando você tem um Arco íris de energia ao seu lado - e caipirinha, claro? Nada, amigos! Sob as bênçãos do noivo, liberei o buffet para servir a galera porque geral italiano e ninguém podia passar fome não. Abastecidos de álcool e amor, todos puderam esperar confortavelmente a chegada dos pais do noivo. A partir daí, foi como tinha de ser.

Carol entrou pelo salão lotado. Em slow motion você via a cara das pessoas de queixo caído porque ela vinha com seu visual pinup saboreando cada pedacinho do momento sem pressa, com toda a atenção, deixando transparente para quem quisesse ver seu enorme coração vulnerável, intenso, paciente. Era cada passo que a Carolina dava para encontrar um Gustavo que jamais vamos conhecer - porque ele é mistério - mas a verdade é que, para o que ali estava virando dois, as explicações para o resto do mundo eram desnecessárias. Do nosso amor a gente é quem sabe.... exatamente isso.

Nos encontramos novamente no segundo andar da casa e nunca vou poder esquecer essa cena, esse pedaço de vida que aconteceu. Você chorava. Alguns amigos seus estavam lá e você os abraçou um a um. E você lembrou do dia do funeral da sua mãe e de como a casa tinha ficado totalmente vazia e silenciosa, como você tinha ficado só. Não lembro bem como foi que terminamos abraçadas também, só consigo falar agora do que senti naquele momento e a conclusão é que não posso te perder, garota. Não havia nenhum profissional ali cuidando da noiva naquele momento e quero que você saiba disso, saiba que aquele abraço foi uma das coisas mais marcantes que já me aconteceram e o que eu queria era catar pra mim um pouquinho do seu mundo e dar um pouquinho do meu pra você, com útero, trapalhadas, áudios gigantes no whatsapp e episódios do Ru Paul. Leva tudo! Só preciso que você me deixe ficar por aqui te olhando mesmo que de longe, mesmo que tendo notícias pelas timelines do mundo.
Todo mundo chorava demais, desesperadamente e ainda bem que o Gustavo tomou posse do orixá Scarface que lhe caía bem, bateu palmas e gritou VAMOS PARAR DE CHORAR PORRA! Porque estávamos realmente precisando voltar a vida, sair do círculo de coisas que ficam se repetindo na nossa cabeça pra olhar pra frente e andar sem cair. O Gustavo é a pessoa que não deixa a gente se afogar.
Voltamos para a festa.

Muita comida, muita bebida, muita música, muitas fotos.
A decor reuniu circus, nerdices, livros, paradinhas geeks, anos 50, luzinhas, glitter e Star Wars pra todo lado... tudo isso junto por um único motivo: porque a gente pode.
Lá pelas tantas, os vizinhos começaram a reclamar do som mas, queridos, ninguém se fez de rogado e colocamos a festa toda pra dentro. Orquestrados pela noiva - que foi ao microfone dar a notícia - os convidados afastaram as cadeiras e mesas que se tornaram completamente inúteis quando começou a tocar Mc Marcinho.
Teve também aquela parte em que Darth Vader chegou em pessoa e todo mundo enlouqueceu. E como vamos esquecer do botijão de gás hélio compartilhado pelos convidados para deixar mensagens de felicidades aos recém-casados na frente de uma Go-Pro? Pois é.. vocês estavam todos bêbados mas eu vi tu-di-nho!

A desmontagem da festa terminou comigo e Carol mortas sobre o super explorado sofá da Tia Neide. Joaquim mamava, você já estava com o pijama da Princesa Leia e nós duas conversávamos...  sobre o que?
Tínhamos uma vida em frente pra gente viver e não fazíamos ideia de como ela ia ser, mas ninguém queria pensar a respeito porque havia muito êxtase e muito cansaço envolvido.
Foi uma loucura, concorda? Mas fizemos e foi lindo. Foi, principalmente, subversivo porque teve tanta parada pra derrubar nossos planos, tantas palavras duras e tão pouco tempo pra pagar a conta... Mas sinto que rolou um acordo implícito entre nós, de que faríamos o que tivesse de ser feito e aguardaríamos a desforra, a zueira sem limites, a Força, o Lets Dance do Bowie.
Escrever sobre tudo o que passamos naqueles infinitos 40 dias era necessário. Precisava ficar registrado em algum lugar tudo o que passamos e tudo o que somos. Existe essa coisa esplêndida que é a forma como lidamos com os absurdos de vida e de morte presentes em todos os dias. Apostar no amor e na amizade podem ser coisas que as pessoas falam como um clichê ridículo, mas uma coisa a gente sabe: existe peso sim, mas existe muita glória e vida quando a gente é quem a gente quer ser junto de quem a gente quer estar. Sem reservas, somente escolhas: assim criamos histórias e laços, assim criamos nosso mundo.  


=====================    O S   E N V O L V I D O S   =============================
Cerimônia e festa: casa de familiares dos noivos || Buffet: Maria Luiza Buffet || Bolo e doces: Lecadô || Cupckes: Morena Flor Doceria|| Open bar: Fernando Barman || Vestido da noiva e véu: Ateliê Maria Figueira || Buquê: Nega Fulô || Convites: DIY || Flores da cerimônia e da festa: Nega Fulô || Mobiliário: Mineirart - Locação de Móveis || Itens de suporte e cenografia: Decoranda + Empório Alecrim - Decor, Design Floral & Gastronomia + Empório Felicitá || Lembrancinhas: Fotocabine + Moleskine do Yoda da Dona Amélie + Polaroides || Convidado especial: Darth Vader

Cerimonial e Decoração: Vou Casar e Panz || Artesanatos: Bianca Bringel (minha ex noiva prendadíssima!) || Fotografia: Larissa Margulies . Fotografia || Filmografia: Wonderland


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Para noivas moderninhas de alma retrô (parte 2)

Gente, nem vou fazer delongas dessa vez. Só acho que você deveria parar tudo o que está fazendo agora pra babar em cima desses dois looks maravilhosos baseados em vestidos do Ateliê Maria Figueira e estrelados pelas lindas Angel e Mariana, as duas ganhadoras da promoção Something Old. Meu recalque está explodindo sim!

No intervalo das fotos, você confere a entrevista que fiz com Vanessa Maria Figueira e com a beauty stylist Raquel Prosse; as duas falaram sobre o estilo antiguinho e deram dicas que não são barras de ouro, mas valem mais que dinheiro! CHECK IT OUT!


Prill - As meninas que ganharam a promoção estão pra casar, mas estavam ali num faz de conta de noiva, digamos assim. Comenta um pouco sobre essa experiência..
 
Raquel Prosse - Foi uma grande experiência para elas e para todos os profissionais envolvidos. Pra mim é sempre um frio na barriga  quando estou com cada noiva. E com elas pude ver a empolgação com a escolha do vestido, dos acessórios, criação do penteado e maquiagem e do cenário. Foi interessante e intenso para todos!! 

O que uma noiva retrô precisa ter em mente na hora de pensar seu look para o dia?
Raquel Prosse - Acho que a personalidade é o item principal na escolha do look. A noiva retrô ou até a noiva princesa precisa levar em conta o seu gosto. Pensar que na hora da entrada precisa seguir ao altar de cabeça erguida, segura da sua escolha e que se, daqui a 10 anos quando olhar o seu álbum de casamento, ainda estará segura da escolha que fez. 
Batom vermelho ou mesmo puxados pro vinho/terra como costuma usar a Lorde têm sido tendência nas ruas e algumas noivas têm pedido. Dá pra casar com tom de boca escuro? Como harmonizar o restante do visual com essa ideia?   

Raquel Prosse - Eu sou suspeita para falar de batom vermelho e olhos super delineados porque amo! Batom na cor escura puxada para o vinho ou marsala  está com tudo!! Eu uso com frequência, acho um tom chique e que fica bem em todos os momentos; você só precisa ter o carão para sustentar o look. 
Tenho muitas noivas que se casaram e algumas que irão casar com a minha cor de batom queridinha, o "Diva" da MAC. A composição do restante é deixar os olhos marcados com delineador e lápis. E nas sombras gosto de optar pelas neutras ou tons mais claros para não deixar com um ar pesado. 

Prill - Como fazer  vestidos de noiva com personalidade mas que, ao mesmo tempo, não deixe os pais e os avós de cabelo em pé?

Ateliê Maria Figueira - Sempre dá para casar a tradição com a personalidade. Existem as noivas que desejam casar com um vestido super diferente mas tem o receio de se arrepender no dia, noivas que possuem pressão dos pais e família, e noivas com o desejo de tradição mas não gostam do branco ou renda, strass e querem um vestido mais sóbrio e autêntico. Se a noiva deseja cor e personalidade no modelo vale colocar nos detalhes do vestido, como cinto, bordados, anágua ou até mesmo no corte e escolha da renda. Detalhes sutis podem fazer a diferença e a noiva conseguir a personalidade que desejou sem abrir mão da tão sonhada tradição.


A pegada vintage é uma marca registrada do Ateliê. Quem é a noiva que procura vocês?
 Ateliê Maria Figueira - As noivas que procuram a gente já pesquisaram muito no mercado e não encontraram aquilo que correspondesse aos seus gostos.
São muito decididas e sabem o que querem, com o que sonham. Elas se identificam muito com o Ateliê, com os vestidos, com os tecidos e as rendas, com o diferencial das pérolas e bordados com brilho sutil ou brilho nenhum. São mulheres que, como nós, acreditam nos detalhes que encantam.

As nossas noivas estão dispostas a terem  o diferente e querem qu
e seus convidados na festa reconheçam que o vestido realmente transmitiu sua autenticidade e sua personalidade.
Gente, uma dúvida: como harmonizar o acessório de cabeça com o vestido? Tem alguma dica de ouro aí?
Ateliê Maria Figueira - Quando a noiva deseja, costumamos usar os mesmos tecidos do vestido no acessório, e isso propõe uma harmonizada bem legal, por ser confeccionado com o mesmo material.
Entretanto, também valorizamos o contraste, e quando ele é bem aproveitado, promove uma super composição com o vestido e o conjunto como um todo fica bem interessante e ousado. Então não é uma regra os elementos entre vestido e acessório serem os mesmos.


terça-feira, 7 de julho de 2015

Something Old: para noivas moderninhas de alma retrô (parte1)


Gosto de pensar que o vintage é muito mais do que uma tendência. Que o lance vai além de frases de ordem na capa de alguma revista descolada ou na boca de algum formador de opinião em 2009. O retrô, o antiguinho é, antes de mais nada, um modo de ser, viver e sentir o mundo.

Nostalgia, certo senso deslocamento, uma brincadeira com objetos e referências que fizeram parte de outros tempos, outras culturas. Perceber o passado como um país estrangeiro. Jogar com o vintage é justamente poder fazer uma viagem doida a outros mundos sempre que você quiser.

Mariana Telles e Angel Rodrigues são duas senhoras estilosérrimas, noivas de verdade verdadeira que participaram da da promoção Something Old e faturaram barras de ouro que valem mais do que dinheiro uma produção completa com maquiagem, vestido, foto e filmagem. O projeto reuniu profissionais mega engajados na luta contra a mesmice do mercado de casamentos e que trazem propostas e soluções pra quem busca casar a favor da belezura de ser você mesmo.

Ateliê Maria Figueira (vestidos e acessórios), Raquel Prosse (make&hair), Ana Kacurin (fotografia), Kim Derick (cinegrafia) e eu (produção) passamos um dia com essas duas lindas sensacionais. O resultado você confere nessa série que dividi em 3 partes com imagens de referência, análises de look e entrevistas. 


A senhora noiva está querendo entrar nesse hype, fazer uma brincadeira interessante na hora de escolher os vestidos e acessórios para casar e se pergunta: mas, gente, como faz??
Miga, senta aí, chama a Billie Holyday e acompanha comigo esse editorial delícia.


Diva misteriosa do passado
 "Essencialmente feminino" são pra mim as duas palavras melhor caracterizam a composição defendida pela Mariana Telles. Usando esse icônico vestido do Ateliê Maria Figueira, nossa noiva-modelo consegue equilibrar os extremos da feminilidade impondo força, doçura, leveza e intensidade, tudo ao mesmo tempo pairando acima de qualquer tentativa de rótulos. Como isso aconteceu? O caimento de vestido - estilo imperial - somado aos cabelos sobriamente presos + maquiagem em tons terrosos, com direito a batom escuro e olhão preto são a parte diva-noir do look. Já as rendas florais, franzidos e o voilete com arco de pérolas trazem delicadeza e romantismo para essa noiva lacrativa.






Ultrarromântico cheio de leveza
 Os cabelos cacheados estilo mocinha dos anos 30  são a chave desse look. O penteado conferiu a Angel um ar romântico sonhador que emoldura os outros itens. A make em tons rosados, o casquete de diva discreta e o buquê com plumas completam a composição pra entrada do vestido tomara que caia nude - a cor oficial do vintage. As aplicações de renda no busto e as perolinhas escuras na saia arrematam essa noiva que é super romântica, mas que passa longe de clichês fáceis.




Os profissionais
CINEGRAFIA: Kim Derick  || FOTOGRAFIA: Ana Kacurin || MAKE & HAIR: Raquel Prosse || PRODUÇÃO: Vou Casar e Panz  || VESTIDOS e ACESSÓRIOS: Ateliê Maria Figueira

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